Imagens míticas e simbolismo: Jeremy Narby e a “Serpente Cósmica”

O livro A Serpente Cósmica, o ADN e a Origem do Saber, de Jeremy Narby, vem reforçar as minhas dúvidas sobre o papel que a figura da serpente assume em diversas imagens associadas à simbologia, expressas em campos como a religião, a mitologia ou os contos maravilhosos. No primeiro caso, a serpente é vista como a “responsável” pelo pecado original ao entregar a maçã a Eva para tentar Adão, acto que condenaria o ser humano, mais tarde salvo por Jesus Cristo. Quanto à mitologia, as figuras da serpente ou do dragão são universais. Talvez devido às suas caraterísticas morfológicas, são seres que sempre fascinaram as pessoas e estão presentes nas mais variadas formas no floclore de inúmeras culturas. Na mitologia grega, por exemplo, Eurídice foi assassinada por uma picada de uma cobra no dia do seu casamento. Para os hindus as serpentes são reencarnações de pessoas conhecidas. Os aztecas consideravam Quetzalcoatl o deus serpente. Os contos maravilhosos também não passam sem a figura do dragão (uma espécie de serpente que junta os três mundos: aquático, terrestes e celeste) ou do matador de dragões.

A serpente é, no fundo, um réptil que sempre fascinou a mente humana, pelas suas características, a começar pelo facto de todas as espécies serem carnívoras e por esse motivo constituem uma ameaça para outros animais, incluindo o homem, conhecidas que são algumas capacidades predadoras, como as espécies mais venenosas ou aquelas de grande dimensão capazes de sufocar e engolir presas aparentemente de tamanho superior. Fascina também o facto de poderem mover-se com grande agilidade, embora não possuam membros, e as suas periódicas mudanças de pele, que simbolizam rejuvenescimento.

Estas e muitas outras características de um ser tão particular (e ao mesmo tempo tão diversificado) têm tornado a serpente num réptil que alimenta a imaginação do homem de forma transversal em todas as culturas e em todas as épocas. Situa-se aqui um dos grandes problemas de Jeremy Narby, relativamente às conclusões que retirou do seu trabalho de campo junto dos Ashaninca, da comunidade Quirishari, no Vale do Pichis, na Amazónia peruana, em 1985 e nos dois anos que se seguiram. Na realidade, falar de imagens universais ou transculturais para um antropólogo não seria uma boa escolha, assim como também não servia o propósito de Narby referir-se a alucinações para justificar a entrega da floresta amazónica aos nativos, como adiante veremos.

É o próprio autor quem começa por justificar a sua permanência na Amazónia em trabalho de campo, motivações que só por si já nos fazem desconfiar da autenticidade ou da legitimidade etnográfica de Narby, inquinando à partida um trabalho que pretendia ser científico: «A minha investigação sobre a utilização dos recursos naturais do Vale do Pichis pelos Ashaninca não era neutra. De facto, no início dos anos 80 e com o apoio dos grandes organismos internacionais para o desenvolvimento, o governo peruano lançara-se na colonização dos territórios indígenas situados nos flancos orientais dos baixos Andes. O objectivo era levar a cabo “a conquista do Peru pelos peruanos”, e baseava-se na ideia de que os imensos territórios “inabitados” apenas aguardavam ser valorizados em prol do progresso do país. Para os peritos da época, o “desenvolvimento” consistia em desmatar a floresta tropical (a “selva”) e estabelecer pastagens para a criação de gado. Quando se lhes retorquiu que esses territórios eram habitados e utilizados há milénios por povos indígenas e que, em certos casos, o patamar de utilização equilibrada já fora atingido pela população existente, explicaram que os indios “utilizavam os recursos de forma irracional” e que o confisco das duas terras se justificava em termos económicos» (Narby 2004: 14). Ou seja, para além da obtenção do seu doutoramento, Narby tinha como objectivo da sua pesquisa uma «análise económica, cultural e política que demonstrasse a natureza racional da utilização da floresta pelos Ashaninca». Esse estudo devia contribuir para o reconhecimento oficial dos seus territórios. No entanto, não seria muito bem aceite alegar uma origem alucinogénica para o conhecimento ecológico dos indígenas e o respectivo uso de planta medicinais.

Podia até ser muito louvável a atitude ecológica de ajudar os indígenas a preservarem os seus territórios contra o avanço da modernidade, mas Narby esbarrou na forma como os nativos lidavam com a própria ecologia: através de “drogas”. O principal alucinogénio utilizado pelos indígenas era o ayahuasca, cuja composição química consistia na combinação de duas plantas: A primeira contendo uma hormona segregada naturalmente pelo cérebro humano, a dimetiltriptamina, porém inactivada se for tomada por via oral, uma vez que é inibida por uma enzima do aparelho digestivo humano, a monoamina oxidase. Mas a segunda planta, usada em combinação com a primeira, continha substâncias que protegiam a hormona da inactivação da enzima. Depois de ferver ao longo de várias horas, esta combinação de duas plantas resultava numa bebida psicotrópica, duranto o efeito da qual, diziam os indígenas, éra-lhes revelado o segredo de muitos outros remédios que também resultavam da escolha, combinação e preparação das milhares de plantas da flora amazónica. O mais estranho é que Narby não parece desconfiar (ou não quer) de uma impossibilidade técnica, quando os indígenas lhe confidenciaram que a própria confecção do ayahuasca lhes foi revelada durante o efeito psicotrópico do… ayahuasca. O que eles afirmam, no fundo, é que aprenderam a fazer ayahuasca quando estiveram sob efeito do próprio ayahuasca, o que é impossível.

Jeremy Narby decidiu tomar ele próprio ayahuasca, seguindo o exemplo de um outro antropólogo, que passou pela mesma experiência em 1968, Michael Harner, que afirma ter visualizado «criaturas semelhantes a dragões que residiam no interior de todas as formas de vida, incluindo o homem». Narby descreve a sua experiência confirmando ter visto aquilo que os indígenas também diziam ver: a ayahuasca era a “televisão da floresta” porque lhes permitia observar imagens reais, serpentes de várias cores, psicadélicas. No fundo, o que Narby descreve é uma alucinação sobre a qual ele próprio revela ter dificuldade em falar com clareza.

A partir daqui o grande drama de Narby é utilizar esta informação para defender um dos objectivos do seu trabalho de campo: a manutenção da floresta nas mãos dos indígenas, contra o avanço do desenvolvimento. A indústria farmacêutica já tinha descoberto propriedades medicinais em várias plantas da Amazónia e podia ampliar esse conhecimento com o estudo de muitas outras plantas, aproveitando o conhecimento botânico dos indígenas. Estes, porém, não estavam dispostos a fazê-lo sem a justa compensação monetária. Era neste ambiente que Narby se movia profissionalmente após o trabalho de campo na selva amazónica, mas sem nunca revelar que o conhecimento botânico dos indígenas era adquirido através de substâncias psicotrópicas e alucinogénicas. Ainda por cima, visualizando serpentes, algo que acontecia a outros povos, em locais bastante distantes, sem que necessitassem de tomar qualquer droga, como na Austrália. Aquela omissão ocorria por receio de que a informação prestada relativamente às competências botânicas dos nativos deixasse de ser suficientemente credível.

Narby passa então o resto do tempo a tentar encontrar uma maneira de justificar de forma racional aquilo que acreditava ser uma realidade mas que tinha a consciência de ser pouco credível na comunidade científica. Na verdade, não me parece que ele tenha sido bem sucedido, até porque partiu de um pressuposto que omitiu o respeito pela relatividade cultural. Isto é, tentou demonstrar algo que ele sabia não ser do domínio racional para a comunidade ocidental, embora o fosse no contexto dos povos amazónicos, mas procurou a todo o custo encontrar uma explicação científica, ocidentalmente aceite, para a prática que observou junto dos Ashaninca.

Tentou demonstrar que os nativos conseguiam observar serpentes sob o efeito do ayahuasca de uma forma que remetia para um nível molecular e isso significava que podiam ver as propriedades das plantas, o seu ADN, que é comum a todos os seres vivos. Estes xamanes que tomavam ayahuasca podiam assim conhecer as propriedades das plantas através do conhecimento do respectivo ADN, num processo semelhante ao que os biólogos usam recorrendo a meios tecnológicos, como o microscópio. Narby tenta mesmo descobrir os pontos de convergência entre ADN e xamanismo, quando se refere que a dupla hélice (imagem que é semelhante às duas serpentes entrelaçadas visualizadas pelos xamanes que tomam ayahuasca) do ADN, parecida a uma escada que os xamanes usam para fazer a ligação entre a terra e o céu.

Narby conclui que em todo o lado onde existe xamanismo são vistas imagens do ADN e da dupla hélice. Só que por um lado há outros povos que observam as mesmas imagens sem tomarem qualquer bebida alucinogénica, e por outro, este tema das serpentes é recorrente em mitologias de outros povos que não usam psicotrópicos. O esforço que Narby revela ter feito para conseguir entender toda esta problemática acaba por não ter um efeito prático, na medida em que não consegue explicar as visões dos nativos que tomam ayahuasca, nem tão pouco consegue descobrir de que forma os nativos que estudou possuem tão complexos conhecimentos sobre a botânica que os rodeia e que, em muitos casos, comprovados até pela indústria farmacêutica ocidental, tem propriedades que, combinadas na medida certa, podem representar eficazes descobertas da medicina convencional ocidental.

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BIBLIOGRAFIA:
Harner, Michael J. The Way of the Shaman. 3.ª ed. New York: HarperOne, 1990.
Luna, Luis Eduardo e Pablo Amaringo. Ayahuasca Visions: The Religious Iconography of a Peruvian Shaman. Berkeley: North Atlantic Books, 1991.
Narby, Jeremy. A Serpente Cósmica, o AND e a Origem do Saber. Porto: Via Óptima, 2004.

Uma resposta a Imagens míticas e simbolismo: Jeremy Narby e a “Serpente Cósmica”

  1. Davide Carvalho diz:

    O livro não foi lido com a atenção necessária, visto que explica claramente aquilo que sugere serem as “visões” como uma recepção das ifnformações (fotões) emitidos por toda a natureza e pelo seu ADN, sugerindo tambem que outros métodos podem ter sido utilizados em todo o mundo como os sonhos, experiências místicas e estados de transe ou hipnose, para captar os tais fotões de fraca intensidade mas com uma enorme frequência que explicam os tons florescentes das visões. Os próprios Ashaninca tinham outros tipos de comunicação com a natureza sem ser pela via alucinogénica. Para além disso não apenas a ayahuasca possui propriedades alucinogénicas. O exemplo do tabaco é também descrito no livro. Não percebo como são possíveis tais comentários, só explicados por uma leitura desatenta. O próprio autor é o primeiro a ser muito céptico e a procurar contrapôr os seus raciocínios com a bibliografia mais apropriada.
    É claro que muita coisa fica por explicar, sendo que a mensagem mais importante que retive do livro se prende com erro científico de afastar e apelidar de “trash” a tudo o que (ainda) não tem uma explicação científica como é o caso de mais de 90% do ADN…

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